quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Big Brother vigia o telespectador


Desde 2002, todo começo de ano é a mesma coisa: tem Big Brother na TV. Com muito dinheiro dos anunciantes, milhares de candidatos e audiência garantida.

Por outro lado garante-se também a divulgação em larga escala do que há de pior nas relações humanas. São momentos onde homens e mulheres abandonam séculos de evolução cultural para se apresentarem ao público dotados apenas de instintos naturais, como o sexo e a luta pela sobrevivência.

O que escapa desses instintos reduz-se a comportamentos marcados por egoísmo, falsidade e preconceitos. Claro que há o lado do bem, apresentado como forma de justificar o mal.

No Brasil, a primeira versão do que ficou conhecido como reality-show apareceu há exatos dez anos com o programa “No Limite”, da Rede Globo. Era uma adaptação do “Survivor” exibido antes em outros países.  Nele, os participantes eram obrigados a chegar aos limites da sobrevivência comendo, por exemplo, ratos no Mar da China, na versão da CBS, nos Estados Unidos. Por aqui, comeram olhos de cabra.

Mas foram só duas edições. A primeira, talvez pelo impacto, chegou a dar picos de 56 pontos de audiência. A segunda, no entanto, já não despertou tanta atenção e foi substituída em 2002 pelo Big Brother Brasil, um formato comprado da empresa holandesa Edemol e espalhado pelo mundo.

É curioso notar que, na Europa, esse tipo de programa só surgiu com o aparecimento das televisões comerciais.  As emissoras públicas sempre foram muito mais cuidadosas com o nível de qualidade de suas programações. Big Brothers, portanto, são produtos da desregulação das economias, fenômeno que atinge seu auge nos anos 1990 e não poupa nem a televisão. 

No Brasil caiu como uma luva. Juntou num só programa dois formatos já consagrados pelo público: jogos e novelas. Não eram portanto novidades, como acontecera com o “No Limite” que deu certo apenas uma vez. O Big Brother mostrava de forma diferente alguma coisa que os telespectadores podiam identificar com facilidade.

Programas de auditório, desde o início da TV brasileira, levaram ao ar competições entre participantes, geralmente com prêmios em dinheiro ou em bens materiais. Com disputas nas quais não faltava a participação organizada de torcedores. Ingredientes refinados pelo Big Brother, com prêmios milionários, disputas pessoais que podem levar candidatos ao paredão e participação do público através de votações periódicas.

Tudo combinado com o melodrama da novela. Candidatos são selecionados cuidadosamente para desempenharem, no programa, papeis previamente estipulados. Alguns até se surpreendem ao perceberem que serão obrigados a exercer um tipo de comportamento diferente de sua personalidade ou estilo de vida no mundo  real, sob o risco de eliminação.  

As tramas são construídas de fora e desenvolvidas conforme o andar do programa. Como nas novelas, cujo roteiro vai sendo conduzido de acordo com as tendências do público. A diferença está na forma, por exemplo, de eliminar personagens que não estão dando boa audiência. Nas novelas geralmente eles morrem de forma repentina. No Big Brother vão para o paredão e são eliminados.

Outra característica da novela incorporada pelo Big Brother é a forma seriada do programa. Sempre fica para a edição seguinte alguma coisa não resolvida na anterior,  aguçando a curiosidade do público. Mesmo com resoluções apenas temporárias, uma vez que novos conflitos surgem sempre, a cada dia, até o grande momento final onde se escolhe o vencedor. 

É ai que se percebe a principal contradição do Big Brother. Trata-se de um formato estruturado sob a lógica do confinamento de um determinado grupo de pessoas numa casa sob o olhar de dezenas de câmaras de televisão. Ficam reclusos, relativamente isolados do mundo por alguns meses, como se estivessem presos.

Na verdade, não são os participantes que estão presos. Eles se inscreveram voluntariamente, passaram por uma seleção rigorosa e podem, se desejarem, deixar a casa a qualquer momento. Quem está preso é o telespectador, controlado cientificamente através de pesquisas quantitativas e qualitativas realizadas pela emissora e, a partir dos dados obtidos, vigiado diariamente pelos índices de audiência

São esses índices que estabelecem as mudanças de rumo das tramas e os resultados dos jogos, com o objetivo único de não perder nenhum telespectador. Este, por sua vez, se torna presa ainda mais fácil, na medida em que se julga livre para escolher outro canal e outro programa. É uma ilusão, uma vez que as alternativas oferecidas, especialmente na TV aberta, são do mesmo nível em termos de conteúdo, mas tecnicamente inferiores e, portanto, menos sedutoras. Não há escolha real.

É uma situação curiosa. Faz até lembrar uma observação feita por Marx a respeito dos homens que “sob o domínio da burguesia são idealmente mais livres que antes (no feudalismo), pois suas condições de vida lhes são fortuitas: na realidade, porém, são menos livres, pois estão submetidos à coerção das coisas”.

Quem acompanha o Big Brother está submetido a uma coerção cultural que vai muito além da própria televisão.  Ela é apenas uma das peças, ainda que muito importante, de um tripé do qual fazem parte um sistema educacional ainda deficiente e uma ideologia dominante privilegiadora do consumo e do individualismo. Comportamentos fortemente reforçados pelo programa.   

No livro “A dinâmica dos reality-shows na televisão brasileira”, o pesquisador Cláudio Ferreira, mostra como o Big Brother trata outros valores sociais. “Temas como sexo, namoro, homossexualidade e racismo são tratados a partir de parâmetros conservadores, mesmo que haja pressões, por parte dos participantes da competição, para que atitudes mais liberais sejam permitidas.  Antes de se balizar pela vontade dos concorrentes, a emissora leva em conta a  postura do telespectador médio”. Aquele detectado nas pesquisas.

Está  claro que a tal realidade anunciada e vendida pelo programa ao telespectador é uma farsa. Trata-se de uma cuidadosa manipulação de um pequeno grupo de pessoas elaborada para prender à frente dos televisores uma multidão desprovida de alternativas menos nocivas de lazer e entretenimento.

Enquanto as condições mais gerais da sociedade não mudarem restam apenas soluções paliativas para enfrentar os problemas causados pelo Big Brother. Como as propostas do Ministério Público Federal estabelecendo horários diferenciados para exibição do programa e mais cuidado com as cenas de sexo, violência e incentivo ao uso de bebidas alcoólicas.

(Artigo publicado originalmente na Revista do Brasil)

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).


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